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Solidão ou solitude? O que Sabáticos e Apagões sexuais dizem sobre a saúde sexual feminina?

Sabáticos e apagões sexuais: como eles influenciam a saúde sexual feminina e a diferença entre solidão e solitude na sexualidade.

Foto: Olga / Pexels

 

A solidão feminina é um tema de crescente relevância no Brasil. Com as mudanças sociais e culturais, o número de mulheres solteiras e divorciadas tem aumentado, trazendo à tona discussões sobre a vida afetiva e sexual dessas mulheres. Para nos ajudar a entender como essa mudança social compromete a vida sexual de mulheres, convidamos Natali Gutierrez, fundadora e CEO da Dona Coelha, para nos esclarecer pontos essenciais da crescente de Apagões e Sabáticos sexuais entre mulheres.

De acordo com o último Censo do IBGE, o número de mulheres solteiras no Brasil tem crescido significativamente. Em 2022, aproximadamente 43% das mulheres brasileiras estavam solteiras. Este número reflete tanto aquelas que nunca se casaram quanto as que se encontram viúvas ou divorciadas.

Em relação ao divórcio, dados do IBGE mostram que a taxa de divórcios no Brasil tem aumentado. Em 2021, foram registrados cerca de 380 mil divórcios, sendo que a maioria das ações foram iniciadas pelas mulheres. Esse aumento pode ser atribuído a vários fatores, incluindo maior independência financeira e mudanças na percepção social sobre o casamento.

Foto: Arthur Brognoli


Danielle Moreira: Qual é a definição de "apagão sexual" e quais são as principais causas desse fenômeno?

Natali Gutierrez: O apagão sexual está muito vinculado à geração Z, que está fazendo menos sexo do que as gerações anteriores. É a falta de prática sexual na rotina deles. Isso se deve a uma série de facilidades e possibilidades para se obter prazer que não estão vinculadas ao sexo em si, como a pornografia fácil na palma das mãos com um smartphone e os aplicativos de relacionamento, por exemplo.

DM: Quais são os sinais de que alguém pode estar experimentando um "apagão sexual" e como eles podem buscar ajuda?

Natali: O ideal é buscar sempre o conforto e a alegria junto à própria sexualidade. Mas quando o preferir estar sozinha se estende por muito tempo, por anos, e começar a ter medos, inseguranças, desconfortos e/ou qualquer sentimento negativo em relação a se envolver fisicamente e intimamente com outra pessoa, vale a pena refletir e questionar por que esse momento está fazendo parte do dia a dia. Vale buscar uma conversa com o terapeuta (caso já faça terapia) e, caso não, procurar um terapeuta sexual.

DM: Existem estratégias específicas que casais podem adotar para evitar ou lidar com um apagão sexual em seus relacionamentos?

Natali: O diálogo é sempre extremamente importante para evitar qualquer questão que não está clara ou para evitar as entrelinhas. É importante expor o que sente, o que gosta, como gosta, por que alguns incômodos estão aparecendo e também praticar uma fala empática e uma escuta ativa, e não só falar tudo o que pensa sem nenhum filtro. Quando o casal opta por não compartilhar o que pensa e seus reais sentimentos, o afastamento vai acontecendo de forma cada vez mais presente na rotina e, quando se dão conta, não existe nem sequer mais um beijo na boca no relacionamento, quem dirá um envolvimento sexual.

DM: Como os profissionais de saúde podem abordar o tema do "apagão sexual" de forma eficaz em consultas médicas ou terapêuticas?

Natali: É raro sentarmos em frente a um médico (seja qual for a especialidade) e o profissional se preocupar com essa questão com o paciente. E quando o assunto é levantado, rapidamente o profissional procura sair do assunto. O ideal seria que os profissionais de saúde buscassem se capacitar para falar sobre o assunto, para acolher o paciente, para oferecer um espaço seguro para as conversas sobre sexualidade. Mas, infelizmente, o tabu chega a todos os lugares, inclusive dentro dos consultórios.


DM: O que é um "sabático sexual" e quais são as razões comuns pelas quais alguém pode optar por fazer uma pausa na atividade sexual?

Natali: É quando a pessoa opta por não se relacionar sexualmente por um período determinado, a fim de fazer um "detox" na vida dela. Exemplo: não vou/não quero me relacionar com pessoas por um ano, sem beijo na boca, sem sexo ou qualquer envolvimento íntimo. Isso pode acontecer por diversos motivos, como, por exemplo, cansaço de tantas decepções anteriores, frustrações de relacionamentos ou encontros, foco em outra coisa para o momento, decisão de se conectar com o corpo de outra forma e por aí vai. Cada pessoa tem o seu motivo para optar por um sabático sexual.

DM: Quais são os benefícios potenciais de um sabático sexual para a saúde física e mental?

Natali: Pode ser extremamente importante e revigorante para se encontrar com outros propósitos na vida, novas conexões, novas descobertas e até uma libertação de uma necessidade de ser feliz buscando outra pessoa. Mas é importante fazer isso por um desejo real da pessoa e não porque tem alguém forçando a barra para se desconectar de tudo. Precisa ser genuíno.

DM: Como alguém pode determinar se um sabático sexual é apropriado para si? Existem sinais ou indicadores que sugerem que alguém pode se beneficiar de uma pausa na atividade sexual?

Natali: É muito delicado, são muitos fatores para definir o quanto pode ser interessante e positivo ou não. O ideal é sempre buscar um acompanhamento com um terapeuta para orientar, acolher e entender juntos se é uma opção válida, se pode fazer bem ou apenas deixar tudo mais sufocante ou confuso.

DM: Há alguma preocupação de que um sabático sexual possa levar à diminuição do desejo sexual ou a problemas de relacionamento?

Natali: Pode ser um gatilho de reforço para não conseguir se relacionar com outras pessoas ou pode despertar motivos de não querer ter nenhum tipo de envolvimento com a própria sexualidade. Como pode dar uma grande saudade dos contatos com as pessoas e de ter uma rotina com orgasmos. Eles podem ou não fazer falta, por isso a importância de entender exatamente todos os porquês de fazer ou não um sabático sexual e ter um acompanhamento de perto com um profissional.

Pode ser uma oportunidade de descobrir mais coisas sobre si mesmo(a), outras coisas que dão prazer, novas formas de intimidade e tantas outras possibilidades de conexão e diversão. Mas tudo isso precisa ser conversado, pensado e analisado conforme todo o processo for acontecendo.

DM: Como saber quando é hora de encerrar um sabático sexual e voltar à atividade sexual regular, se for essa a escolha da pessoa?

Natali: Tudo varia de acordo com as expectativas de cada pessoa e o que ela busca e espera com esse processo de conexão consigo mesma e uma desconexão com a questão sexual. Tudo pode ser muito interessante e lindo, mas pode ser dolorido. Por isso, é importante ter em mente todos os pontos de interesse, os positivos e os negativos, para não gerar nenhum estresse emocional e físico.

Foto: Pavel Danilyuk


DM: Em que medida fatores como estresse, ansiedade e estilo de vida influenciam a saúde sexual das pessoas?

Natali: Totalmente! Somos sugados pela nossa rotina, pelo estresse, pelo trabalho, faculdade, família e compromissos. Às vezes, quando nos damos conta, só buscamos paz e nossa própria companhia para conseguir colocar tudo no lugar, e claro que o "copo" vai ficando cheio e a tendência é querer cada vez mais essa paz solo e cada vez menos se estressar com outra pessoa. Claro que ter uma parceria, uma amizade colorida ou alguém para um sexo casual pode ser incrível, mas o quão custoso pode ser até chegar nesse ponto de ser feliz, leve e agradável? Quantos dates tóxicos as pessoas não passam e, no fim, não encontram essa "pessoa bacana"? No fim, às vezes, vale muito mais a pena nossa própria companhia do que ouvir coisas absurdas por aí, mas existe uma importância em não se deixar levar e nunca mais sair de casa para não se envolver.

DM: Como a diminuição da interação íntima está impactando as novas gerações? Existem diferenças significativas em comparação com gerações anteriores?

Natali: A nova geração está cada vez mais afastada do contato físico, sem muita paciência e focando mais na praticidade do virtual. Não se vê na mesma intensidade como há alguns anos atrás os jovens querendo sair para encontrar outras pessoas, saindo para beijar na boca ou com aquele foco de "quantas pessoas vou ficar". Acredito que as pessoas estão cada vez mais engajadas em ser mais livres e menos presas às questões de se relacionar com alguém.

DM: Quais são algumas práticas ou técnicas que as mulheres podem adotar para explorar e desenvolver sua sexualidade sozinhas?

Natali: A melhor forma é a busca do autoconhecimento com seu próprio corpo, se curtindo sem pressões do que outras pessoas sugerem ou pressionam a fazer e entender o porquê de querer naquele momento. O querer se conhecer por vontade própria é sempre a melhor opção. Eu gosto muito de propor um momento de relaxamento (que cada pessoa sabe como é a melhor forma), seja com uma música, uma luz baixa, uma bebida que agrada, um banho relaxante e, aos poucos, no ritmo ideal de cada pessoa, ir desbravando as novas possibilidades do corpo, entendendo quais estímulos são mais ou menos agradáveis e, o mais importante: curtir e vivenciar o momento sem julgamentos ou expectativas.

Foto: Cottonbro Studio


DM: Quais são os benefícios de uma vida sexual ativa e saudável? E quais são os riscos associados à privação sexual prolongada?

Natali: O maior benefício, no meu ponto de vista, é a liberdade sexual de saber exatamente o que e como gosta, e não terceirizar o prazer para outra pessoa, não esperar que alguém faça por você o que sozinha conseguimos. Um outro benefício é jamais aceitar o mínimo de prazer e troca no momento de intimidade quando se sabe exatamente até onde somos capazes de chegar com nossa potência orgástica. Mas claro que o ideal não é ser a pessoa mais segura sexualmente sozinha e nunca se envolver com outras pessoas. O contato físico é saudável, é gostoso, e o beijo na boca sempre vai ser a cereja do bolo, que sozinha fica mais difícil, rs. O risco de se "isolar" é ir perdendo cada vez mais o hábito da socialização e ainda mais de se relacionar intimamente com outras pessoas. A vergonha toma conta, a insegurança, a autoestima fica abalada, e nunca ninguém será bom o suficiente, afinal, a pessoa já é suficientemente boa para ela. Mas é pela troca, pela experiência, pela diversão.

DM: Como a tecnologia e a mídia social influenciam a percepção da sexualidade nas novas gerações? Existem maneiras de utilizá-las de forma positiva nesse contexto?

Natali: Hoje nós temos de forma muito fácil (comparada há anos atrás), todo e qualquer tipo de informação e conteúdo que desejarmos, seja relacionado à sexualidade ou qualquer outro tema. Vamos pensar em uma receita de um bolo que você comeu em outro país: em apenas alguns cliques, a receita está facilmente na sua mão; os ingredientes também é possível comprar online e chegar no conforto de sua casa, tudo isso com um smartphone em mãos. Isso também vale para os relacionamentos e a questão da sexualidade: é possível se relacionar com pessoas de qualquer lugar do mundo por meses ou até anos de forma online, é possível fazer sexo pelo celular.

Se o objetivo do sexo é o orgasmo e somos capazes de chegar lá sozinhos, por que não? Eu acredito que tudo é uma questão de equilíbrio. São possibilidades incríveis e interessantíssimas, mas não podemos centralizar toda nossa energia em um lugar apenas. É muito bacana experimentar sexo online, mas o contato do corpo a corpo é sensacional também. A forma saudável de usar a tecnologia é a mais adequada, sabendo usá-la a nosso favor, para sermos mais livres, mais informados, e não virarmos pessoas presas que só sabem se relacionar de forma online e à distância.

DM: Há diferenças de gênero significativas na forma como a privação sexual afeta as pessoas? Como isso pode se manifestar?

Natali: Os apagões sexuais podem acontecer com qualquer pessoa. Na verdade, eu entendo que a questão é muito mais sobre o momento em que vivemos do que em relação ao gênero. Estamos vivenciando comportamentos menos profundos e com muito mais praticidade: "quer? quero! Não quer? Vou buscar outra pessoa!" Isso vai muito além de um perfil; podem ser pessoas da geração Z, pessoas que estão frustradas demais com relacionamentos passados, pessoas que não querem se envolver e buscam mais leveza na intimidade com outras pessoas. Ou seja, não existe uma receita de bolo para essa questão da privação sexual. As manifestações ficam por conta dos excessos em não se envolver com outras pessoas e buscar a intimidade solo na maior parte do tempo e por longos períodos.


Essas novas "tendências" comportamentais podem ser consideradas um termômetro para o avanço da liberdade sexual feminina, mesmo que atualmente ainda tenhamos que lutar pelo básico, a vida sexual saudável sempre estará acompanhada desse poder de decisão. E como dizem por ai: "Melhor sozinha, do que mal acompanhada".

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