Leituras para desacelerar: livros para fugir das redes sociais fim de ano
- Danielle Moreira

- 29 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Uma curadoria de livros para se desconectar das redes no fim de ano e mergulhar em leituras que estimulam reflexão, imaginação e atenção plena.

Foto: Gemini IA
Entre notificações infinitas, vídeos curtos que se acumulam sem deixar vestígios e a sensação constante de cansaço mental, o fim de ano surge como uma rara chance de desacelerar. Longe das timelines e da lógica do consumo rápido de atenção, a leitura volta a ocupar um lugar essencial: o de pausa ativa, reflexão e mergulho em narrativas que exigem presença.
Selecionamos quatro livros que funcionam como um verdadeiro detox digital. São obras que convidam ao pensamento crítico, à imaginação e à reconexão com o tempo longo, aquele que não cabe em quinze segundos.
A Mulher de Negro, de Fabricio Azevedo
Fantasia urbana, crítica social e monstros à luz do dia

Foto: Divulgação
E se São Paulo fosse habitada por criaturas que se escondem à vista de todos? Em A Mulher de Negro, Fabricio Azevedo constrói uma fantasia urbana densa, irônica e profundamente conectada à realidade da metrópole. Os alapados, seres híbridos e metamorfos, vivem entre nós, trabalhando, pagando impostos e desaparecendo na noite.
A narrativa acompanha Lucius, um enfermeiro marcado pelo dom da visão e por um passado de exclusões, vícios e diagnósticos equivocados. Ao testemunhar uma entidade sugando a energia de um paciente, ele se vê lançado em uma perseguição que ameaça não apenas sua vida, mas o equilíbrio entre mundos.
Com estrutura não linear, múltiplos pontos de vista e referências que vão de lendas urbanas à música e à história, o livro vai além do entretenimento. É uma metáfora afiada sobre desigualdade, invisibilidade social e os monstros que preferimos não enxergar.
Volta ao Mundo em 280 Páginas: Do Crepúsculo ao Alvorecer
Viajar com os olhos e desacelerar com curiosidade

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Leve, curioso e surpreendentemente viciante, Volta ao Mundo em 280 Páginas é uma celebração do conhecimento fragmentado, mas profundo. Cada página funciona como uma janela cultural, histórica ou linguística para diferentes partes do mundo, sem a pressa e o ruído das redes.
Da origem do termo Schadenfreude às curiosidades sobre Machu Picchu, Salvador, Cazaquistão e Paraguai, o livro convida o leitor a viajar no próprio ritmo, absorvendo pequenas descobertas que ficam. Uma leitura perfeita para quem sente falta de aprender por prazer, sem algoritmos ditando o próximo assunto.
Design para um Mundo Melhor, de Don Norman
Um convite urgente para repensar hábitos, consumo e futuro

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Referência mundial no pensamento sobre design e comportamento humano, Don Norman retorna com uma reflexão atual e necessária sobre a forma como vivemos. Em Design para um Mundo Melhor, o autor propõe uma revisão profunda da relação entre humanidade, tecnologia e planeta, questionando o prazer instantâneo promovido pelo consumo e amplificado pelas redes sociais.
Norman parte de uma constatação simples e poderosa: estamos sobrecarregados. A lógica do “novo o tempo todo” cria breves picos de satisfação que logo se esvaziam, alimentando um ciclo insustentável. Sem tom acusatório, o autor analisa como cada decisão cotidiana reforça sistemas que impactam diretamente o bem-estar coletivo e a sustentabilidade global.
Publicado pela Rocco, o livro propõe um novo paradigma baseado em métricas que vão além do lucro, defendendo que prosperidade e responsabilidade não são opostas, mas complementares. Uma leitura ideal para quem deseja começar o ano com mais consciência e menos automatismo.
A Amizade e o Tempo, de José Eduardo Medeiros
Memória, narrador não confiável e os limites da verdade

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Em A Amizade e o Tempo, José Eduardo Medeiros constrói um jogo literário envolvente entre lembrança e invenção. A trama parte de uma premissa instigante: um cientista à beira da morte decide registrar sua biografia, mas suas memórias começam a se mostrar contraditórias e perigosas.
À medida que a jornalista responsável pela narrativa investiga o passado de Sampaio, surgem indícios de crimes, traições e versões conflitantes que desafiam a noção de verdade absoluta. O romance se move entre Minas Gerais, São Paulo e Grécia, misturando paixão, mistério e reflexões sobre lealdade e tempo.
Com um narrador não confiável e um suspense psicológico que se intensifica a cada capítulo, o livro exige atenção plena, exatamente o oposto da leitura fragmentada das redes sociais.
Os Interiores, de João Matias
Distopia nordestina para ler com atenção e fôlego

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Em Os Interiores, romance de estreia de João Matias, distopia e memória regional se cruzam para refletir sobre um Brasil atravessado por crises sociais, climáticas e políticas. Ambientada nos interiores do Nordeste, a narrativa dialoga com acontecimentos recentes do país e com episódios históricos muitas vezes apagados, como os campos de confinamento de retirantes das secas.
A protagonista Tieta conduz o leitor por uma jornada marcada por violência de gênero, militarização e desigualdade. Após assassinar o marido, um general, ela atravessa os sertões em busca das terras de seus antepassados, enfrentando um território hostil que funciona quase como um personagem da trama.
Com cenas duras, diálogos afiados e uma atmosfera de tensão constante, o livro combina crítica social e elementos do insólito para construir uma leitura intensa e reflexiva. Uma obra que exige presença e desaceleração, ideal para quem busca se afastar do ruído das redes e mergulhar em uma ficção que encara, sem atalhos, as contradições do país.

Foto: Reprodução Pinterest
Em um mundo que disputa cada segundo da nossa atenção, escolher um livro é um gesto consciente. Essas leituras não prometem respostas rápidas nem recompensas imediatas, e talvez por isso sejam tão necessárias. No silêncio das páginas, a mente desacelera, o pensamento se aprofunda e o tempo volta a ter espessura.
Um fim de ano longe das telas pode começar exatamente assim: abrindo um livro e fechando, nem que seja por algumas horas, a porta do feed infinito.







